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O rosto da Medicina mudou, mas a sobrecarga continua a ser feminina

Imagem: FMB.

Dra. Claudia Paola Carrasco Aguilar – Secretária-Geral do Simepar e Diretora da FMB.

O ano de 2025 ficará registrado na história da saúde no Brasil como o marco de uma transformação demográfica irreversível: pela primeira vez, as mulheres tornaram-se a maioria dos médicos no país. No entanto, o que deveria ser celebrado como uma vitória da representatividade revela uma realidade preocupante. A feminização da medicina consolidou-se sobre alicerces de desigualdade estrutural, onde o avanço na carreira coexiste com uma sobrecarga crônica e uma exposição crescente a violências institucionais e interpessoais. Microagressões no ambiente de trabalho, assédio e a desvalorização profissional baseada no gênero formam uma barreira invisível que ameaça a integridade psíquica de quem dedica a vida a cuidar do próximo.

Embora ocupem cada vez mais espaços, as médicas brasileiras ainda enfrentam a barreira invisível da dupla jornada. Nosso dia a dia é marcado pelo equilibrismo entre uma carreira de alta responsabilidade, caracterizada por plantões extensos e decisões críticas, e a gestão quase exclusiva das tarefas domésticas e do cuidado com filhos e familiares. Esta “segunda jornada” não é apenas um detalhe doméstico; é também um fator de risco ocupacional.

Os dados recentes são alarmantes e não permitem indiferença. Estudos indicam que quase metade das médicas brasileiras (46,8%) apresenta algum adoecimento mental. Quando comparadas aos seus colegas do sexo masculino ou a mulheres de outras áreas de atuação, as médicas apresentam índices significativamente superiores de exaustão emocional, distúrbios do sono e Síndrome de Burnout.

A prevalência de ansiedade atinge 39,9% das médicas, enquanto a depressão afeta 25,3% destas profissionais. Este quadro é agravado por um ambiente de trabalho que, muitas vezes, ainda é hostil, expondo as profissionais a assédio e microagressões que funcionam como estressores contínuos.

Outro fenómeno crítico identificado é o presenteísmo — o ato de trabalhar mesmo estando doente. Motivadas pelo estigma em torno da saúde mental, pelo receio de prejuízos na trajetória profissional ou pela simples dificuldade de ausentar-se, muitas médicas negligenciam o próprio sofrimento até atingirem o limite da exaustão.

Nesse contexto, a saúde mental da mulher médica deixa de ser uma questão individual para se tornar um indicador estratégico da qualidade do atendimento à saúde. Uma profissional exausta e psicologicamente fragilizada é o espelho de um sistema adoecido.

A solução não é cobrar mais “resiliência” das médicas. Não se resolve um problema estrutural com dicas de autocuidado. Precisamos de tolerância zero contra a violência e o assédio, de políticas reais de equidade e de um ambiente que permita o descanso e o suporte psicológico sem punições veladas.

Cuidar de quem cuida é um imperativo ético. Se queremos que a nova face da medicina brasileira seja um símbolo de progresso, precisamos garantir que exercer nossa vocação não custe a sanidade de quem a pratica. O sucesso da medicina brasileira agora depende, obrigatoriamente, da saúde de suas médicas.

Artigo publicado no Portal da Federação Médica Brasileira.

A Dra. Claudia Paola Carrasco Aguilar também gravou um vídeo. Assista a seguir:

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